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Contando histórias para reencantar a escola.


A literatura tem na voz o seu meio de expressão e transmissão oral e, na escrita, por sua vez _ à mão e em letra impressa _ a garantia da permanência das sucessivas fases de um labor tradicional contínuo que perpetua através dos séculos e ao mesmo tempo a renova em cada elo das múltiplas correntes que dele derivam.

Assim é que o suporte físico do papel tem contribuído para a “permanência da voz”. Mas por outro lado, nem a representação escrita nem a icônica conseguem aprisionar a voz. Ao contrário, renovam-na continuamente, emprestando-lhe novas cores, novas perspectivas, abrem-lhe novos caminhos que cada contador sabe traçar com sua percepção de co-autor dessa produção oral.

É essa multiplicidade de vozes e letras que torna o texto tradicional semanticamente denso e quanto à forma, representativo de uma diversidade multifacetada que se revela por meio de marcas temporais, espaciais e socioculturais distribuídas na sua constituição literária. Oralidade, literatura e alfabetização se entrelaçam em perfeita sintonia e sinfonia. A relevância desse entercruzar está exatamente em sua elaboração a partir do real com o social, o concreto vivido.

Nesse sentido, o homem moderno pode criar uma variedade de histórias que vão muito além do condicionamento imposto pelo neo-liberalismo “selvagem”. Para Marx, não era a consciência dos homens que determinava sua existência, mas, ao contrário, era a sua existência social que determinava a sua consciência. As crianças das classes populares podem criar uma variedade de histórias que vão muito além das limitações que lhes são impostas pela escola, pela mídia e pela sociedade. Ao classificar o aluno como “deficiente” em aprendizagem, acabamos por classificá-lo como um ser inábil, impossibilitado de viver sua própria significação no mundo em que vive; incapaz de existir como consciência crítica..

Para Bachelard (l994) a imaginação deve ser criadora e dinâmica e não meramente copiadora e passiva. Existem várias portas. Nós educadores somos apenas os intermediários no “achamento” e na “escolha” da chave. É um jogo, uma troca, um compartilhar. É a garantia de não se perder o encantamento, da busca pelo o inusitado, o irreal, o desconhecido. Porém, as portas são infinitas e as chaves também. Trata-se de um efeito mágico que quando se pensa que tudo já fora desvelado, há sempre mais a se descobrir.

Contar histórias é parte desse processo envolvente _ é um dos caminhos para o reencantamento dos terrenos escolares, para que as sementes lançadas germinem, cresçam e dêem bons frutos. Assim, as histórias existem para serem contadas e ouvidas, para serem lidas e escritas. A audição das histórias que contamos aos nossos alunos é um importante passo apara a descoberta da leitura com gosto. Quando lemos para nossos alunos permitimos a eles a oportunidade da observação, do contato com a palavra lida; que difere da palavra escrita. Ao lermos em voz alta, mostramos ao educando que há diferença entre a “fala” e a “escrita, entre o som e a letra., entre a “leitura da escrita” e a “escrita da leitura”. O aluno é levado a refletir de forma questionadora sobre a linguagem e sobre sua diversidade.

Na Alfabetização, a audição de histórias infantis propicia a criança a viagem ao universo da leitura e da escrita, da linguagem verbal e não-verbal. A criança começa a desvendar as possibilidades do texto, aumentando assim seu repertório de palavras. Aprende que a voz também existe para levar leituras e dramatizações aos ouvintes. Nos sentimos mais próximos quando há uma voz por perto; ativamos nossa fantasia, nosso imaginário. E é Paulo Freire quem nos convida para o diálogo, quando diz que (...) o espaço do educador democrático, que aprende a falar escutando, é cortado pelo silêncio intermitente de quem, falando, cala para escutar a quem, silencioso, e não silenciado, fala. (l996, l32)

Ao contar uma história ou narrar um fato do cotidiano, o “efeito sonoro” causado pela voz do professor, cria um clima _ uma atmosfera de afetividade. Para as crianças que estão sendo alfabetizadas, este efeito une a realidade do mundo à fantasia. A criança é estimulada à imaginação e à abstração, sentindo-se mais fortalecida para contar e escrever sua própria história. Drummond dizia no poema Infância: “Minha mãe ficava cosendo
Olhando para mim (...) Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda .
Eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robison Crusoé. As histórias mais bonitas do mundo não estão somente nos livros didáticos ou nos ícones literários. Belas histórias podem ser escritas por nós, por nossos alunos _ através da nossa memória, dos nossos sonhos, das nossas experiências e expectativas.

Não podemos deixar de ouvir os nossos sons. Na Ilha do Alfabeto Illich explica que os sons são alados, e voam antes mesmo que se possa acabar de pronunciá-los. Por isso numa cultura oral, a memória não pode ser concebida como um arquivo ou uma tabuinha de cera. A memória oral é fluída, moldando-se continuamente no discurso dos falante. E para podermos segurá-la e preservá-la enquanto fator histórico de uma coletividade, precisamos transformá-la em discurso escrito. Em uma sociedade alfabetizada o juramento perde o valor em relação ao manuscrito. Não conta mais a memória, mas o registro. (Illich, Ivan et.al.,l990,28) A memória do sentido cede lugar a memória do texto. É de fundamental importância, não só no processo de Alfabetização da criança ou do adulto, bem como nas etapas subseqüentes, trabalhar o texto oral a favor do texto escrito.

Bakhtin nos diz que é preciso fazer uma análise profunda e aguda da palavra como signo social para compreender seu funcionamento como instrumento da consciência. É devido a esse papel excepcional de instrumento da consciência que a palavra funciona como elemento essencial que acompanha toda criação ideológica, seja ela qual for. (1986,p.37)

A palavra está onde nós estamos – na nossa ideologia, na nossa liberdade. Se não acreditamos na nossa existência histórica e social, a palavra morre estrangulada. Se as crianças das classes populares não forem levadas a conhecer as “palavras que abrem portas”, como poderão descobrir o mistério e a força da linguagem? Abre-te Sésamo, CIDADANIA!

Patricia Porto

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