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Revista Cult: Conheça o Mulherio das Letras, articulação de autoras por igualdade no mercado editorial

Maria Valéria Rezende _Foto-Adriano-Franco

Helô D'Angelo
(9 de junho de 2017)

"Entre 12 e 15 de outubro, o Mulherio das Letras vai reunir pelo menos 400 mulheres ligadas à escrita no Centro Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa (PB) – cidade escolhida para fugir do eixo Rio-São Paulo, o que mais lança autoras no Brasil. Além de um evento, o ‘Mulherio’ é também um movimento: trata-se do primeiro grupo literário em nível nacional voltado para a reunião, revelação e para o auxílio de mulheres ligadas às letras – sejam elas escritoras, editoras, acadêmicas ou mesmo designers.

“Criamos ali, meio sem querer, um grande agregado de mulheres no mercado editorial”, diz Maria Valéria Rezende, escritora, vencedora do prêmio Jabuti e uma das organizadoras do grupo. “A ideia é que seja uma forma de congregação de autoras, completamente livre e sem hierarquia.”

Será o primeiro encontro nacional voltado quase que exclusivamente para autoras do sexo feminino. Na programação há rodas de conversa sobre literatura e mercado editorial, além de intervenções artísticas, saraus e performances. A curadoria, segundo Rezende, foi feita de forma colaborativa e sem lideranças.

“Nossas maiores atrações serão rodas de conversa, e não mesas ou palestras em que um grupo de pessoas famosas fala em um palco, separado do público”, diz Maria Valéria Rezende. Durante o evento – realizado em parceria com a Secretaria de Cultura da Paraíba, a ONG Porta do Sol e a UFPB -, a organização quer ainda lançar o prêmio Carolina Maria de Jesus, que premiará escritoras jamais publicadas, oferecendo como recompensa a chance de colocarem seus escritos no mercado.

Trampolim literário

Rezende conta que a ideia de criar um evento literário voltado para mulheres veio de uma inquietação causada pela exclusão sofrida por elas nos tradicionais espaços das letras: “Você olhava os prêmios literários e tinha uma, duas mulheres. O resto era só homem. Isso me provocava”, afirma.

Ao longo dos anos, ela e muitas mulheres ligadas à literatura se encontravam periodicamente para conversar sobre o problema. As conversas evoluíram para reuniões durante eventos literários importantes, como a Flip – onde Rezende se uniu a mulheres como Conceição Evaristo, Mirna Queiroz e Joselia Aguiar e, juntas, chegaram à conclusão de que havia a necessidade de criar um evento que, enfim, desse lugar às autoras do sexo feminino.

As atividades são coordenadas por meio de um grupo no Facebook, que atualmente conta com 4.200 integrantes (todas mulheres). Ali, elas marcam encontros, debatem, trocam experiências e fortalecem suas formas de escrita e as estratégias de publicação em um mercado que ainda é muito hostil às criações femininas.

Em pesquisa de 2012, por exemplo, a crítica literária Regina Dalcastagnè mostrou que, naquele momento, 72,7% dos escritores brasileiros publicados eram homens. “Não é que as mulheres não estejam escrevendo. O problema é que somos barradas do mercado editorial”, critica Rezende.

Ela ressalta que o Mulherio não é uma “marca registrada” ou uma “instituição”, e deixa claro que a ideia é que justamente seu conceito se espalhe pelo país, transformando-se quando preciso. O mais importante, segundo ela, é mostrar que as mulheres que escrevem são reais – e são muitas.

“Queremos criar um movimento, algo que marcará a história e trará igualdade. É algo prático, além de ideológico”, diz. “Um movimento que vai permanecer ativo até que ele não seja mais necessário, o que só vai acontecer quando as mulheres estiverem em pé de igualdade com os homens no meio literário.”

Mulherio das Letras
Onde: Centro Cultural José Lins do Rego, João Pessoa – PB
Quando: de 12/10 a 15/10, das 15h às 20h
Quanto: grátis

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