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Para não parar de Ler: O Romantismo Alemão.



Por Ana Lucia Santana

O Romantismo Alemão é um movimento que nasce no final do século XVIII, na Alemanha, embora depois se dissemine por todo o Ocidente, renovando as raízes culturais desta esfera da civilização. Ele se contrapõe ao culto exacerbado da Razão, perpetrado pelo Iluminismo.


O movimento alemão foi criado pelos irmãos August e Friedrich Schlegel, por Novalis, jovem poeta, pelo autor de obras dramáticas Ludwig Tieck e pelos ícones da Filosofia Schelling e Schleiermacher, todos unidos em torno da revista “Atheanum”, em 1797. Esta escola logo se estendeu por toda a Alemanha, contagiando a poesia e a literatura com a presença de Goethe e Schiller, a música com os compositores Beethoven e Brahms, as Artes Plásticas com a Escola de Berlim e Frankfurt, e a filosofia.
Este ideal racionalista rouba do mundo seu encantamento, o vínculo com o sobrenatural, e agora resta aos jovens românticos desbravarem o universo desconhecido do inconsciente. Eles acreditam profundamente no reencantamento da realidade, em uma imagem do Homem que não é só razão, mas sentimento, desejo místico, atração pela Natureza. Este ser tem em seu íntimo uma vida interior a ser revelada, que age sobre os românticos com um magnetismo sem par, atraindo-os para o seu núcleo com a voracidade típica do que é novo.
Para os românticos, o mundo não é uma equação exata, sem margens de erro. A realidade é muito mais rica, oferecendo ao homem várias possibilidades que podem ser exploradas. Assim, múltiplos pontos de vista sobre o real podem coexistir, variando conforme a percepção de cada um. Neste sentido, o Romantismo foi revolucionário ao romper com as cadeias da educação tradicional, baseada somente no domínio da Razão, e o sujeito podia enfim elaborar sua própria interpretação do mundo exterior, o que apontava para os limites da visão racionalista.
Ao criticar o paradigma da Razão, os românticos exercitaram uma espécie de crítica de arte que foi posteriormente definida pelo filósofo Walter Benjamin como meio de reflexão, o qual combate o viés monológico do conhecimento, ou seja, aquele que privilegia apenas um discurso – neste caso, o racional –, não permitindo que outros se expressem. Assim, nesta linha de pensamento inerente ao Romantismo, só é considerada uma obra de arte aquela que tiver o poder de despertar um conjunto de reflexões, as quais constituirão um conhecimento não mais monopolizado por uma única voz, mas aberto para a multiplicidade discursiva.
Os românticos se valem da arte para engendrar seu próprio mecanismo de conhecimento e de evolução humana. A criação artística nos torna livres, portanto, do domínio da Razão e nos permite simplesmente sentir, perceber algo que não pode ser traduzido pelo campo da lógica, mas mesmo assim está presente no Universo, como Deus – de quem os adeptos do Romantismo estão muito próximos. Abre-se assim, diante do ser, o vasto campo do autoconhecimento, pronto para ser decifrado. Este fascínio exercido pelo Eu atrai os românticos para a esfera da introspecção, do crepúsculo, do mistério. Sempre que o mundo dá uma guinada excessivamente materialista e racional, retornam os princípios sedutores da visão romântica da vida, principalmente a importância atribuída a Natureza enquanto fonte da unidade, como hoje ocorre com o ressurgimento do ponto de vista holístico, contraposto a um conhecimento fragmentado e a um ideal mecanicista.

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