Pular para o conteúdo principal

"Meninos não choram" por Patricia Porto.

Chad Crouch.


Por que faz tanto frio lá fora?
Fora do círculo o fogo dissolve a aspereza das mãos.
Perto do fogo o veto é desumano em degelo.
Hoje me sentei ao lado de um menino, um menino negro,
um menino que estava preso, mas podia ir à escola,
Seu nome Maicon como o de um Rei que desvaneceu.
 “Tráfico e roubo, mas tenho bom comportamento.”
A professora deprimida mal conseguia lhe estender o olhar,
presa no frio da navalha de sua cadeira.
Os dois, lado a lado,  juntos aqueciam seus corpos num latão imaginário.
Juntando melodramas coloridos ao fogo. “Depressão, mas me readapto bem.”
Como espíritos avulsos e sem reconhecimento, errantes nas sobras das ruas marginais.
Na sala de espera ficamos por mais de quatro horas sem controle remoto para estancar o tempo.
A professora readaptada, o menino do reformatório, quatro horas e meia de espera.
Ela já vem. Ele já vem. A Polícia. A ambulância. A cura. A morte.   A máquina de  ocultar  nossos desaparecimentos.
Ninguém chegará para nos alimentar de sorte a solidão compartilhada.
Um  ponto cego nos incomodava: _ se eu ficar, prometo cuidar de você.
Um ponto cego nos iluminava: _ se eu ficar, prometo ser bom pra você.
As mãos de Maicon eram longas demais para um menino,
mas seus olhos não: “Se eu ficar prometo mudar de vida. Eu posso ficar?”
“Eu tenho medo que você fique, você é parte da minha doença. Mas eu também já não quero que você parta.  Cure a dor que há em mim. Eleve a minha alma.”
Quatro horas de séculos de fortuita tragédia nos unia em torno do fogo. Jazia tanto frio lá fora na imensidão dos homens adultos em torno de um punhado de poder...
Pude sentir a tristeza da espera do menino: “Acho que não me querem”. Ele pressentiu a minha: “Acho que não me querem.”  Sentados ao avesso, vagando invisíveis pelas celas, salas, corredores de pedra. Tantas pedras nas mãos para atirar. Tanta raiva. Tanta dor de raiva pra tirar.
“Você ficam e podem ir.” Uma voz avisava do alto de nossas deficiências particulares.
Atravessamos o corredor. Dizem que há uma luz para todos que atravessam. Não a vi, talvez tenham desligado. Meu casaco era pouco para o frio da rua e sua nova saída. Apenas a mão de Maicon sobre meus ombros parecia acesa. Sem palavras, sem corpo de signo, apenas a mão dos nossos flagelos nos despedindo. Sem sal de olhar sigo o caminho em outra vasta direção.
Um cachorro magro me acompanha, posso sentir sua fome quente queimando meu calcanhar. E me sinto de novo amparada.


Patrícia Porto

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto Político Pedagógico: Escola da Ponte, Porto, Portugal.

Projeto A Escola Básica da Ponte situa-se em S. Tomé de Negrelos, concelho de Santo Tirso, distrito do Porto. A Escola Básica da Ponte é uma escola com práticas educativas que se afastam do modelo tradicional. Está organizada segundo uma lógica de projeto e de equipa, estruturando-se a partir das interações entre os seus membros. A sua estrutura organizativa, desde o espaço, ao tempo e ao modo de aprender exige uma maior participação dos alunos tendo como intencionalidade a participação efetiva destes em conjunto com os orientadores educativos, no planeamento das atividades, na sua aprendizagem e na avaliação. Não existem salas de aula, no sentido tradicional, mas sim espaços de trabalho, onde são disponibilizados diversos recursos, como: livros, dicionários, gramáticas, internet, vídeos… ou seja, várias fontes de conhecimento. Este projeto, assente em valores como a Solidariedade e a Democraticidade, orienta-se por vários princípios que levaram à criação de uma gr...

“Cabeça de Antígona" faz uma bela mediação entre a cena e o poema

Resenha de Fernando Andrade Ambrosia http://ambrosia.com.br/literatura/cabeca-de-antigona-faz-uma-bela-mediacao-entre-cena-e-o-poema/ A vida é pequena para uma tragédia? A vida é longa em suas pa(i)ssagens? Como ver em cada cena, luz & sombra como um teatro reflete o vivente que nela se deita, palco? porque a vida em pé nunca saberemos quantas pedrinhas ou britas da poesia do Drummond (ande) haverá no caminho. Será que todos aparato das experiências que estão dentro do baú de guardados foram esquecidas? Pergunto, olhando as pessoas, se temos gosto pelo inóspito destas paisagens onde o horizonte reflete a alma do caminhante-viajante. Se a vida é narrativa mas não ficção, o quê? O poeta pode fazer com a palavra-meta. A tarefa ou liame é lidar com os olhos do subtexto, pois o poeta tem uma faca atrelada ao dentes que é a linguagem. Corta que é uma maravilha. Corta na carne e sangra… O livro de poemas Cabeça de Antígona da poeta Patricia Porto pela Editora Reformatório, poe...

SER PEDAGOGO É...

             "As narrativas das nossas experiências na vida e na escola poderão não pertencer a uma determinada época da historiografia tradicional, mesmo porque trarão dentro de si inúmeras versões e ramificações, fugindo à “forma/fôrma” da História oficial, de versões definitivas, mas essas narrativas estão na latência e na complexidade desse cotidiano no qual tecemos relações. O definitivo é também provisório, nos remetendo a própria reformulação das experiências. Estamos neste “tempo/espaço” a nos re-tecer continuamente, tentando por vezes remontar os números das agendas que não seguimos – os fios que se perdem na produção diária da vida, na “produção do material, do espiritual e das relações sociais”. (Lefebvre, 1991, 37)  PORTO, Patrícia. Narrativas memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura.   Trabalhos dos meus alunos de Didática I,  Semestre 2, 2012.